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Após a folia, a agonia. Criança doente em casa e na escola. O que fazer?

Calor, aglomeração, falta de cuidados com a higiene. Esses são alguns dos ingredientes que acompanham a folia momesca, que em Salvador dura oito dias. Oito dias que se perpetuam na memória não apenas pela alegria e diversão, mas pela quantidade de viroses deixadas para trás, após a passagem dos trios elétricos. E entre os mais atingidos, as crianças.


Conversamos com a infectologista Mariana Rodamilans sobre o tema e ela destaca que o melhor a se fazer para evitar a proliferação dos vírus é “manter um bom estado de saúde através de alimentação e hidratação adequadas e um sono de qualidade”. Na conversa, ela fala sobre prevenção no contexto escolar, onde, “muitas vezes, as crianças estão eliminando vírus antes mesmo de manifestarem sintomas”. 


Mariana, que em 2016 colaborou com a orientação da Comunidade Lua Nova diante da suspeita de surto de H1N1, reforça que a prevenção passa pela individualização dos copos e utensílios de uso pessoal para ajudar a reduzir o risco de transmissão, bem como a higiene das mãos antes e após o uso do banheiro e manipulação de alimentos. E quanto ao melhor momento para o retorno às aulas: “depende do tipo de doença. E nesse ponto é importante a orientação do pediatra”.



As viroses pós-carnaval sempre existiram?


Mariana Rodamilans: O Carnaval é um momento de grande aglomeração de pessoas, aumento de circulação de gente de outras cidades, estados e países em portos, aeroportos e rodoviárias. Além disso, no período do carnaval tende-se a prestar menos atenção na higiene das mãos e nos cuidados com a saúde (hidratação, qualidade do sono, reposição de energia após desgaste físico). Todo esse contexto favorece a introdução de vírus diferentes dos que costumam circular na cidade, para os quais talvez a maioria das pessoas ainda não tenha adquirido imunidade, ocorrendo uma disseminação desses vírus em escala muito maior que em outras épocas do ano.


Esse mesmo raciocínio vale para outras grandes festas e eventos, não é exclusivo do Carnaval, mas as dimensões dessa festa, de fato, chamam atenção e contribuem para que haja uma relação bem nítida entre seu acontecimento e o aumento de “viroses” na população. É importante lembrar que no Brasil esse período coincide justamente com o retorno das crianças às escolas, outro fator que contribui para a transmissão de doenças, devido ao contato mais próximo com outras crianças. A soma de todos esses fatores resulta num período em que já esperamos algum quadro gripal, ou conjuntivite, ou diarreia, em um grande número de pessoas.



Em Salvador o Carnaval dura mais do que na maior parte do país. Isso torna a nossa cidade mais vulnerável?


Mariana Rodamilans: Sim, prolongando aquele contexto de risco que já descrevi, aumenta-se a transmissão de doença.



Elas estão mais intensas (graves) ou é impressão nossa?


Mariana Rodamilans: Os vírus se comportam de maneiras diferentes. Alguns são mais e outros menos virulentos, ou seja, têm maior ou menor capacidade de provocar doença. Então, enquanto alguns vírus mais “bobos” podem causar febre baixa por curto período de tempo, ou sintomas leves, outros podem causar febre mais prolongada e sintomas mais intensos. Não percebo um aumento de gravidade, apenas diferenças entre vírus distintos.



Existe uma lista de principais infecções? Quais seriam?


Mariana Rodamilans: Esse padrão de transmissão fácil em grandes aglomerados é típico dos vírus. Esses agentes são inúmeros e costumam causar desde quadros de febre com sintomas respiratórios (tosse, coriza, obstrução nasal), até vômitos e diarreia, conjuntivite, febre isolada, dor no corpo, manchas na pele etc. Cada indivíduo responde de uma maneira, que depende de seu próprio organismo e também da carga viral a que foi exposto e das características desse vírus: o mesmo agente pode causar apenas uma dor abdominal leve em uma pessoa e um quadro de diarreia e vômitos mais intenso em outra. As complicações possíveis de um quadro viral também variam entre os indivíduos. Não é porque depois de uma gripe um colega do meu filho apresentou uma otite ou uma pneumonia que o meu também apresentará.



As crianças são as mais afetadas? Ou é apenas impressão?


Mariana Rodamilans: As crianças são seres em formação em muitos sentidos, inclusive do ponto de vista imunológico. Ao longo da vida, à medida que somos expostos a agentes infecciosos diversos, o nosso sistema imune monta uma memória que se traduz numa menor taxa de adoecimento quando somos reexpostos a esses agentes, ou ainda um quadro subclínico que passa despercebido. Mas não temos como afirmar com certeza qual é a faixa etária mais acometida pelos vírus mais circulantes agora, pois não testamos esses vírus, nem há exigência de notificação de casos para a maioria dos quadros virais.



Há algo que pode ser feito durante, antes ou após o período de férias e Carnaval para evitar tamanha proliferação de vírus? E, principalmente, quais as precauções no contexto escolar?


Mariana Rodamilans: A melhor maneira de evitar é manter um bom estado de saúde através de alimentação e hidratação adequadas e um sono de qualidade. Existem vacinas disponíveis para alguns vírus, mas não para a maioria dos que costumam circular nesse período.  Evitar grandes aglomerações reduz a exposição às infecções.


Mas na escola é inevitável que haja contato próximo com outras crianças, e muitas vezes elas estão eliminando vírus antes mesmo de manifestarem sintomas. Então, é ilusório acreditar que a transmissão nesse ambiente não ocorrerá. Individualizar copos e utensílios de uso pessoal ajuda a reduzir o risco, bem como a higiene das mãos antes e após o uso do banheiro e manipulação de alimentos.


Uma vez que a criança desenvolva sintomas (ex: coriza, tosse, febre, diarreia) é importante que seja afastada do convívio com outras crianças para reduzir a chance de transmissão. O momento em que pode ser liberado o retorno à escola depende do tipo de doença, e nesse ponto é importante a orientação do pediatra.



O que fazer quando surge a primeira pessoa infectada em casa?


Mariana Rodamilans: Quando alguém adoece em casa devem ser reforçados os cuidados de higiene das mãos de todos, evitar compartilhar objetos de uso individual, evitar que a pessoa doente permaneça em ambiente fechado junto a outras pessoas, e manter os cuidados com alimentação, hidratação e sono.

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