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As crianças e os (des)encontros virtuais

Por: Walkyria Rodamilans

Diretora pedagógica da Escola Lua Nova

Texto publicado na edição 36625 do Jornal A Tarde, de 29 de julho de 2019


Vivemos permanentemente conectados e, a cada dia que passa, fica mais difícil “fugir” dessa nova configuração que abre portas para um novo modo de viver. Nunca, em tão pouco tempo, tivemos mudanças que alteraram tanto a nossa forma de vincular-nos uns aos outros. Compartilhamos o mesmo espaço com nossos filhos, mas em grande parte do tempo estamos ausentes do contexto ao qual estamos inseridos, ainda que presentes fisicamente.


Nunca foi tão veloz e fácil nos conectarmos com amigos de longos anos que estão distantes geograficamente. Nunca foi tão possível visitar mundos variados e obter tantas informações que podem se transformar em ganhos para toda a humanidade. No entanto, pensando no que isso pode acarretar na vida de seres tão pequeninos, é preciso refletir muito. É preciso perceber que eles ainda estão se constituindo como sujeitos, num contexto em que o discurso é produzido, muitas vezes, de forma fragmentada, entrecortada, desconexa... dificultando vivenciar e nomear as experiências que lhes acontecem. Afinal, nos primeiros anos de vida, necessitamos compartilhar experiências, sensações, percepções do mundo com quem está ao nosso lado. Isso é necessário para que possamos aprender a dar nome a todas estas situações e, assim, saber o que é raiva, o que é tristeza, o que é alegria... 

 

Ainda é difícil saber os desdobramentos desta revolução tecnológica. Não sabemos os reais efeitos do uso descontrolado das diversas mídias eletrônicas, não só para as crianças, como para os adultos, muitas vezes conectados, mas isolados uns dos outros e com dificuldades de estabelecer contatos presenciais.


O que se percebe é que, em grande parte dos momentos em que as crianças estão vidradas nas telas de videogames, tablets, celulares ou outros meios, elas estão hipnotizadas, recebendo muitos estímulos visuais e informações sem reagir e, consequentemente, sem conseguir dar sentido a elas. Faltam ao seu lado as pessoas que possam singularizar essas diversas situações. Só elaborando, sentindo e pensando podemos evocar o que nos ocorreu, tornando essas vivências lembranças a serem revisitadas.


Ao se deparar com outra lógica que não a dual - ligar e desligar os aparelhos - constroem-se as ferramentas necessárias para suportar vazios, esperas, negações, frustrações, tudo que é próprio das relações e que se caracterizam por vínculos afetivos presenciais. As experiências tornam-se memórias que nos constituem. Não podemos deixar que as memórias sejam expropriadas de nossas vidas, pois elas nos permitem reconstruir o presente.


Sim, ganhamos muito com o mundo eletrônico, mas cuidemos de não nos desumanizarmos. Não podemos deixar que o modo como nos comunicamos arranque a nossa dimensão própria do viver a vida!

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