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E agora? Meu filho não sai do youtube!

O Brasil é o segundo país que mais usa redes sociais no mundo, sendo superado apenas pelas Filipinas, segundo pesquisa coordenada pelo Media Lab, da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). Entre as redes mais utilizadas está o Youtube, com 42% da população habituada a ver vídeos pela internet, o que já ultrapassa a TV por assinatura. Agora, pense que boa parte desses consumidores são crianças e adolescentes, cotidianamente buscando informação e diversão na rede social e alimentando o sonho de, um dia (não muito distante), se tornar um youtuber. Influência e tanto, não é? Como lidar com isso no cotidiano familiar? 


Dos 100 canais mais vistos no Brasil, 36 deles têm conteúdo direcionado ou consumido por crianças de zero a 12 anos, totalizando mais de 17 bilhões de visualizações. O YouTube Kids, voltado para a faixa de dois a oito anos, possui mais de 11 milhões de usuários ativos, semanalmente. Tudo disponível ali, num clic, ou num deslizar de dedos sobre a tela. Frente a isso, a inadequação de um ambiente urbano para utilização, em especial, das crianças, ocasionando um enclausuramento doméstico e distanciamento do convívio social, promovendo uma presença constante no espaço virtual.


Muitas dessas crianças e adolescentes, inclusive, passaram a alimentar o sonho de deixar de ser um espectador para tornar-se apresentador de seu próprio canal, dando origem a uma nova onda de ídolos digitais: os youtubers mirins. E como representatividade importa, a roda continua a girar, as influências se tornam cada vez mais fortes, e as famílias se perguntam: e agora?


Em abril, a Escola Lua Nova reuniu os familiares em uma Roda de Pais destinada a debater o tema e construir, juntos, os caminhos para melhor orientar as crianças. Na abertura do encontro, disponibilizaram para o grupo uma palestra do Café Filosófico, com Julieta Jerusalinsky: Intoxicação eletrônica na primeira infância.


Ao iniciar o bate papo, o grupo foi unânime em reconhecer a influência dos youtubers na vida dos filhos. Walkyria Rodamilans, diretora pedagógica da Lua Nova e Ana Manoela Santos, orientadora da Escola, representaram a equipe pedagógica da instituição, e ressaltaram a delicadeza do tema. “Não dá para isolar o ambiente virtual, como algo separado da realidade, há um imbricamento. O que não pode é a virtualidade subtrair a criança da convivência, da interação com as outras crianças e com os adultos também”, disse Walkyria. Ana Manoela lembrou, a partir da observação no contexto escolar, que há uma tendência das crianças repetirem o comportamento desses youtubers, o que comprova a força desse lugar de influenciadores. Outro ponto levantado foi o estímulo ao consumismo, trazido em muitos dos canais criados na rede social.  


Uma unanimidade desafiadora, apontada pelo grupo, é a necessidade de evitar o uso da internet sem monitoramento, reconhecendo os riscos de uma falsa segurança entre quatro paredes. “Se a gente não deixa as crianças soltas no shopping, como assim deixá-las soltas na internet, que é um ambiente potencialmente perigoso e fantástico ao mesmo tempo?”, questionou um dos integrantes do grupo. Para isso, reconhecem, é importante se ter mais tempo com as criança e os adolescentes, não apenas prezando pela qualidade, mas também pela quantidade, possibilitando o monitoramento do uso do espaço virtual, pois cercear é muito difícil.


Enquanto isso, criatividade e firmeza se fazem necessárias para que os pais definam o tempo de uso, bem como a reflexão com as crianças do que se configura uma boa fonte de pesquisas na Web. Assim, equipe Lua Nova, pais, mães e responsáveis trocaram experiências e sugestões. Um dos presentes disse ter encontrado no incentivo ao esporte uma alternativa. “Apesar da resistência inicial por parte dele, a decisão surtiu um efeito positivo, contribuindo, inclusive, para a redescoberta do prazer pela interação com outras crianças”, contou.


Walkyria Rodamilans lembra que o diálogo é sempre o melhor caminho. “É preciso conversar com as crianças sobre esses conteúdos e fazê-las refletir sobre o que está em jogo. Não basta proibir ou reduzir o uso, é preciso esse diálogo, refletir o que está por trás dos programas, no que tange a valores com os quais nos identificamos ou não”, disse. E por que não usar a internet para refletir sobre ela mesma? Um dos familiares presentes na Roda de Pais da Lua Nova contou manter um blog aberto a críticas e reflexões sobre o conteúdo postado pelos youtubers, colaborando para a ampliação do debate.


Ao final do bate papo, a ênfase ficou mesmo na importância de firmar valores e ter o cuidado para não prestigiar demais a presença desses youtubers na vida dos filhos. O tema não se esgota aqui e os caminhos compartilhados não entram para um manual de uso. A importância de manter o diálogo aceso ainda parece ser a melhor solução. Afinal, “é preciso uma aldeia para criar uma criança”, diz o provérbio africano.

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