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Ritos de passagem

O 5º ano representa o fechamento de um ciclo e a preparação de uma nova fase de vida para os alunos da Lua Nova. É hora de seguir em frente, olhar o percurso trilhado e o já aprendido, disponibilizar-se para o novo, ir para uma escola maior, iniciar uma nova vida escolar.

Nesta entrevista, Ana Manoela Costa, orientadora do Ensino Fundamental da Lua Nova, explica como a escola trabalha este momento na vida dos alunos e das suas famílias e fala também dos ritos de passagem presentes nesta transição.

Acontece na Lua: O que muda na rotina dos alunos neste último ano na Lua Nova?

Ana Manoela: O currículo é organizado com uma série de ritos de passagem,em função do diálogo com o 6º ano em uma nova escola. Para esta preparação há uma mudança na forma de avaliação, na forma de comunicação desta avaliação, assim como uma sistematização dos vários conteúdos com os quais os alunos já vinham trabalhando desde o 4° ano.


Acontece na Lua: Como é esta mudança para as crianças?


Ana Manoela: Elas vivem uma dicotomia. Ao mesmo tempo em que precisam ou esperamos que elas vivenciem o 5º ano com suas especificidades, elas vivem também a despedida da escola, de olho no 6º ano, no que vem pela frente, no devir.

Acontece na Lua: Há medo? Ansiedade? O que a escola faz para que eles se sintam seguros?

Ana Manoela: Em geral não sentem medo, acho que curiosidade. Ansiedade, talvez. Mas há um trabalho, a gente já começa o ano validando o que está garantido em relação a aprendizagem com a matemática, com a leitura de textos diversos, com a pesquisa. Há, portanto, a validação do que eles já sabem e um aprofundamento no que seriam os conteúdos específicos do 5º ano. Isso de alguma forma dá muita segurança. É um momento em que se veem organizando estes saberes, quando podem se perceber pesquisadores do que ainda precisam aprender.


Acontece na Lua: O que muda na rotina deles?

Ana Manoela: Temos atividades específicas, que são tomadas como ritos de passagem. O bazar, os seminários temáticos, a escrita da autobiografia, a viagem de final de ano com pernoite e o evento de encerramento.

O bazar, por exemplo, foi pensado no currículo para trabalhar o conteúdo da matemática e em especial a ética e as relações. E hoje, com o resultado das vendas, eles levantam grana quase que suficiente para pagar a festa de formatura. Os seminários temáticos também funcionam como rito, quando eles se veem na relação com o conhecimento.

Há mudança na ciranda literária, que acontece com um formato um pouco diferente dos anos anteriores, porque além de trazerem um livro de casa, a Lua Nova escolhe alguns títulos para circular, e eles escolhem outros num acervo disponibilizado durante uma feira de livros na escola. É uma escolha compartilhada, então. A escolha é em função do tema de sala, tema de interesse para a faixa etária, e clássicos que acha importante oferecer.

Outro momento importante é a escrita da autobiografia, quando eles se posicionam como autores de sua própria história, podendo se aproximar e se distanciar de temas importantes para a linguagem escrita e para a subjetividade.E, por fim, o encerramento, o fechamento deste ciclo. Durante o evento há o lançamento do livro e a festa de despedida.


Acontece na Lua: E os pais, como lidam com este momento de transição?

Ana Manoela: Há um cuidado específico também com as famílias. Neste início de semestre já houve uma reunião com os pais e responsáveis das duas turmas de 5º ano. O número de reuniões que acontecem no 5° ano é muito maior do que nas demais séries. Nestas reuniões a gente busca preparar estas famílias para a transição. Este cuidado é importante, sobretudo para que entendam as especificidades do ciclo, comecem a pensar a transição principalmente daquelas crianças de famílias que nunca vivenciaram outra escola. Há crianças que chegaram na Lua Nova no Grupo 2 e que vão sair agora. E reconhecemos em todas elas uma “pré-ocupação” com o que vão enfrentar daí pra frente.

Acontece na Lua: Quais são as principais dúvidas dos pais ou responsáveis?

Ana Manoela: Conteúdo. Se os meninos têm conteúdo suficiente para transitar em outro espaço.

Acontece na Lua: E qual a resposta da escola?

Ana Manoela: Sim. Ainda que tenham conteúdos trabalhados de outra forma, na Lua Nova não é diferente do que propõem os órgãos legais. Estamos submetidos a uma orientação do Ministério da Educação e Cultura (MEC), que são os Parâmetros Curriculares Nacionais, com uma grade curricular para todos, e cada escola organiza esta grade do jeito que entende que a educação deva acontecer.

Acontece na Lua: A Lua Nova tem escolas parceiras, indicadas para a continuidade. Como se dá esta escolha e quais são estas escolas?

Ana Manoela: Existe uma orientação do MEC para que as escolas parceiras sejam aquelas regionalmente próximas. Mas para nós não é só isso. Para a Lua Nova importa a possibilidade do diálogo e um mínimo de identificação. Importa poder ir anualmente à escola parceira e conversar com ela tanto sobre as crianças que foram como sobre os currículos.

Hoje faz parte do grupo de escolas parceiras o Portinari, o Módulo e o Oficina.

Acontece na Lua: E quando a criança não vai para uma escola parceira que tipo de orientação é feita?

Ana Manoela: A família é orientada a dividir com a escola a disponibilidade da Lua Nova de conversar. Se surgir alguma demanda, estamos abertos para atender, acolher, e já aconteceram casos assim. Quase sempre por demandas dos pais buscamos abrir o diálogo com novas escolas, mas isso depende também da disposição desta nova escola para a parceria.

Acontece na Lua: Qual tem sido o resultado desta passagem para as novas escolas?

Ana Manoela: A adaptação tem sido fácil, não de forma surpreendente porque o trabalho acontece para isso - para que as crianças guardem aprendizagens significativas o suficiente de modo a transitarem em qualquer outro espaço com sabedoria. Elas têm se posicionando bem nas novas escolas, em muitos casos assumindo papeis de liderança por conta da argumentação, da integridade ou do que já dominam em relação ao conteúdo.

Acontece na Lua: A Lua Nova acompanha a adaptação dos seus ex-alunos?

Ana Manoela: Sim. Em março de cada ano, no mais tardar abril, o Serviço de Orientação Escolar (SOE) vai às escolas parceiras para ouvir como foi a transição, avaliar aspectos facilitadores e dificultadores do processo.

Acontece na Lua: Algum ajuste foi feito em função deste contato?

Ana Manoela: Vários elementos foram repensados internamente por conta do diálogo com as escolas parceiras, preservando os princípios da nossa escola,cuja forma de avaliar é um deles. Nós não utilizávamos a prova como um instrumento de avaliação. Mas, com o intuito de cuidar desta transição, passamos a adotar a prova.

Inicialmente a nossa avaliação costumava ser semestral, porém mudamos a periodicidade no 5º ano para trimestral. Também mudamos a forma de apresentar o resultado que passou de conceito para nota. Mas o instrumento e a expectativa ainda falam muito da nossa concepção de avaliação.

Outro exemplo é o aprender a “estudar para a prova”. Nós instrumentalizamos os meninos para revisar ou tirar dúvida do que ainda não sabem perto do período das provas. Também a partir do retorno das escolas parceiras trabalhamos outros aspectos como, por exemplo, a forma de organizar um trabalho escrito, como se organizar para um seminário.

O caderno que os meninos usam no 5º ano já é um caderno diferente, grande, em espiral, com quatro matérias. Enfim, estes elementos foram repensados internamente por conta do diálogo com as outras escolas sobre o que foi dificultador ou facilitador para os alunos fora daqui.

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